Você conhece a história. Uma pessoa comum de repente percebe que é muito mais do que um indivíduo qualquer. Ela assume um caráter heroico e percebe que seu desígnio na vida é muito maior do que apenas viver uma vida banal e cotidiana. Esse fulano ganha poderes, passa a lutar e tem como missão acabar com um grande mal que assola o mundo. Mas heróis também podem morrer e, pelo menos nesse mundo colorido e cartunesco, não são criaturas únicas.

The Swords of Ditto: Mormo’s Curse perverte as convenções das histórias convencionais desse tipo mostrando que há, sim, um caráter especial naquele que vai salvar o mundo. Entretanto, nem sempre o escolhido é a última esperança, e um novo pode aparecer na sequência, como um lampejo de salvação. A morte, no título, não é necessariamente o fim, mas também propicia um novo começo.

Lançado originalmente em abril de 2018, The Swords of Ditto já havia chamado a atenção por seu estilo bonito e interessante, com visuais inspirados em desenhos animados e um humor sutil, escondido por trás de diálogos convencionais de RPGs com visão de cima. Por trás da história aparentemente conhecida e do visual claramente homenageando os Zeldas originais, entretanto, estão as mecânicas que representam a verdadeira sacada da desenvolvedora Onebitbeyond.


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Um ano depois, os produtores voltam a esse mundo com a expansão Mormo’s Curse, resolvendo algumas questões que incomodaram aqueles que jogaram o original e fazendo adições de cenários e sistemas de jogabilidade. O DLC é gratuito nas versões PC e PS4 do game, enquanto uma versão “completa”, digamos assim, desembarca no Switch; com isso, abrem-se novas portas para quem está chegando agora e também àqueles que já experimentaram a versão original.

Cristais e shrines tornam The Swords of Ditto: Mormo’s Curse mais acessível, derrubando a tensão do permadeath (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

A principal alteração acontece na jogabilidade. Originalmente, The Swords of Ditto contava com um sistema de “quase permadeath” — os personagens morriam de vez, mas o jogador tinha uma nova chance de encarar a malvada Mormo 100 anos depois, quando a espada reencarna e dá seus poderes para mais um cidadão comum. Com a passagem de um século, todo o mundo muda, o que inclui também seus desafios e perigos, tornando cada partida diferente da anterior. De novo, então, temos uma segunda chance.

De forma a tornar o título um pouco mais leve e dar mais espaço à exploração, a Onebitbeyond adicionou um sistema de cristais, que são derrubados por inimigos derrotados e podem ser trocados por vidas extras. Ao retornar ao mundo, o jogador também pode selecionar personagens com atributos e características diferentes, que podem ser salvos para combates posteriores por meio desse sistema.

A maior acessibilidade de The Swords of Ditto: Mormo’s Curse chega acompanhada de novas áreas para serem exploradas (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Sem o fantasma do permadeath pairando o tempo todo sobre nossas cabeças, The Swords of Ditto: Mormo’s Curse passa a dar mais espaço para a exploração e deixa o jogador correr riscos maiores, sabendo que há uma possibilidade de salvação. É claro, ela não vem fácil e aparece de forma extremamente limitada, mas, ainda assim, é melhor do que morrer de verdade.

Afinal de contas, já basta a sensação de urgência do jogo em si, que é intrínseca à sua história, mas não necessariamente às mecânicas de gameplay. Como diz a lenda, a espada de Ditto acorda a cada 100 anos em uma tentativa de combater a maldição de Mormo, e o escolhido tem apenas dias para se preparar para o combate final. Não há contador na tela e o usuário pode passar o tempo que quiser buscando recursos e melhorando seus níveis, mas sempre sabendo que está se preparando para o conflito final.

The Swords of Ditto: Mormo’s Curse homenageia títulos do passado ao mesmo tempo em que adiciona novidades e boas ideias à fórmula (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

Aos moldes de The Legend of Zelda: Breath of the Wild, entretanto, é possível seguir direto para os finalmentes. O que define a dificuldade do combate, no final das contas, é o nível do jogador e os equipamentos usados por ele, algo que também se tornou mais simples com a expansão. Ao renascer, a espada de Ditto pode selecionar entre perfis de guerreiros já criados, com direito até mesmo a atributos especiais. A morte é um novo começo, ainda assim, mas não significa que você tenha que iniciar do zero.

Não que isso vá ser um sacrifício, afinal de contas The Swords of Ditto: Mormo’s Curse é um game incrivelmente bonito. Da arte desenhada à mão ao texto bem escrito (e em português, mesmo na versão Switch), quase tudo impressiona, com exceção, talvez, da trilha sonora, que serve mais como pano de fundo para as aventuras, acabando por não ser marcante.

Caso resolva seguir logo para a batalha final, o jogador perderá outras das adições feitas na expansão, que traz novos cenários, itens e armas para serem coletadas. A ambientação medieval, por exemplo, pode ser substituída rapidamente por uma cidade dominada por zumbis ou um belo litoral paradisíaco, bastando apenas uma transição de tela. O mapa é grande o bastante para que o jogador gaste horas o explorando, mas contido o suficiente para envolver o usuário e nunca passar a ele a sensação de estar sem rumo.

Ao longo da aventura, o jogador passará por pequenas quests envolvendo a busca de um item e missões maiores, invadindo masmorras, buscando itens para melhorar suas armas e enfrentando inimigos mais poderosos para tornar a si mesmo mais forte. Há sempre algo acontecendo no título e o jogador sempre estará em busca de alguma coisa, de acordo com a própria estratégia, devido à já citada liberdade de seguir o caminho que quiser em sua afronta à maldição deste local.

Dungeons, chefes de fase e pequenos enigmas fazem parte da aventura de The Swords of Ditto: Mormo’s Curse (Imagem: Reprodução/Felipe Demartini)

É no gerenciamento de situações desse tipo, na busca por itens de cura quando a coisa aperta e na exploração de dungeons, incluindo enigmas simples e outros nem tanto, em busca de tesouros, artefatos e chefes de fase que garantem bastante XP que estão os grandes atributos de The Swords of Ditto: Mormo’s Curse. O título se aproveita principalmente de inspirações dos RPGs clássicos e faz muito bem o arroz com feijão, adicionando sobre ele uma camada de deliciosas mecânicas diferentes.

Ao mesmo tempo, o game da Onebitbeyond abandona as convenções para entregar algo diferente e, acima de tudo, fresco. Ainda, faz isso mesmo com quem já havia mergulhado na aventura original, de 2018, trazendo novidades para, literalmente, todos, em um título ainda mais acessível e divertido. Um contraste perfeito e interessante em um mundo de aventuras cada vez mais hiperbólicas e uma comprovação de que, muitas vezes, menos é mais.

The Swords of Ditto: Mormo’s Curse foi testado no Switch com cópia digital gentilmente cedida ao Canaltech pela Devolver Digital.

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